CEO da Comence Group defende diagnóstico, olhar para as pessoas e integração entre governo, empresas e academia para transformar municípios.
“Cidade inteligente é lugar onde as coisas funcionam.” A definição, defendida pelo estrategista em cidades inteligentes Felipe Carvalho, CEO da Comence Group, abriu o mais recente episódio do Conexão CPIIC, programa do Ecogateway Talks, parceiro de mídia oficial do Congresso Paulista de Iluminação em Cidades do Futuro. Em conversa com a idealizadora do CPIIC, Juliana Ulian, o especialista reconhecido entre os top 10 do Brasil em GovTech no setor público, apresentou uma visão que vai muito além da tecnologia: para ele, inteligência urbana é uma questão de perspectiva do cidadão.
“Vamos pegar uma situação dentro de uma cidade: Na mesma cidade, uma família que mora numa área periférica gasta 4 horas de transporte por dia, tem saúde e educação distantes. Outra, na região central, vai ao trabalho a pé em 10 minutos. Para uma, aquela cidade é inteligente, porque as coisas funcionam. Para a outra, não”, exemplificou. A qualidade é percebida, e cidades inteligentes, no meu ponto de vista, também.
Diagnóstico antes da solução
Para Felipe Carvalho, a evolução do conceito que saiu da ficção científica dos anos 1950 e 1960, passou pela chancela tecnológica das big techs nos anos 2000 e hoje caminha para cidades “mais humanas e sustentáveis”, acabou afastando muitos municípios da execução. A saída, afirma, é começar pelo básico: Olhar para dentro.
“O papel principal é olhar para dentro, começar por um diagnóstico claro”, disse. Ele apresentou a metodologia Dream Series, dividida em seis etapas, que parte do alinhamento de uma visão compartilhada com os agentes do ecossistema, empresários, academia e outros órgãos de governo, para então ouvir de fato a população e mapear conflitos de interesse. “Sem isso, você não tem subsídios para dirigir esse navio”, resumiu.
Sobre as equipes municipais, o estrategista fez questão de desconstruir o estereótipo do servidor público desmotivado. “Quando trabalhei do outro lado do balcão, vi gente interessantíssima, a grande maioria gente muito boa. Tem um potencial gigantesco dentro da gestão pública que precisa ser explorado.” Ele defende ainda o perfil que une o técnico e o político: “Só o técnico às vezes quer fazer uma revolução. Mas você tem legislação, processo, histórico e outros agentes para compreender.”
Governo articulador e os desafios do GovTech
Sobre o papel do poder público, Felipe Carvalho é enfático: O governo tem responsabilidade legal pelo desenvolvimento social e ambiental, mas nem sempre a competência para resolver tudo sozinho. “A gestão municipal é um articulador dos diversos agentes, mas com foco claro”, afirmou, citando a chamada quádrupla hélice. O alerta vale também para as contratações: “Se não entender qual é o problema a ser resolvido, não sei nem onde encaixar uma GovTech. Eu já vi soluções contratadas que não foram implementadas porque não havia quem coordenasse o projeto nem como integrar os bancos de dados das secretarias.”
A inovação, para ele, tem definição objetiva: “É a busca de novas formas para resolver problemas e que gere valor no final. Para o governo, não é nota fiscal, é o entendimento do problema e o caminho para resolvê-lo.”
Do sertão da Bahia à reconstrução da Ucrânia
A conversa percorreu também os projetos liderados por Felipe Carvalho. Na Bahia, a Licuri (no povoado quilombola Laje dos Negros, em Campo Formoso) funciona como um laboratório vivo: “A ideia é mostrar que é possível gerar desenvolvimento em locais mais remotos, 70% dos municípios brasileiros têm até 20 mil habitantes.” Na Ucrânia, ele integra um grupo com especialistas de 15 países no planejamento de cidades para o pós-guerra, projeto escolhido pela Universidade de Harvard como case em um curso focado na reconstrução do país. “No final, é gente trabalhando com gente para trazer bem-estar”, refletiu.
O Brasil, lembrou, recebeu comitiva do governo de Angola para conhecer o ecossistema de inovação em governos, “as pessoas vêm para cá conhecer soluções que nós já temos como referência”. Após 30 dias de pesquisa na China, ele cita a cidade que visitou como exemplo de inteligência urbana pela superação da pobreza, e aposta na inteligência artificial como transformadora da gestão pública: “Ela permite entender as individualidades e usar dados que hoje não são aproveitados.”
Mensagem aos gestores: democratizar o direito de sonhar
Aos gestores e equipes técnicas que constroem as cidades dos próximos 10 anos, a mensagem final foi inspiradora: “Vamos olhar para as pessoas e pensar como ecossistema. A gente tem que mirar a cidade dos sonhos, se a gente não sonhar, não tem motivação para agir hoje. Temos que democratizar o direito de sonhar para que a transformação aconteça.”
O Conexão CPIIC é transmitido semanalmente pelo canal do Ecogateway Talks. No dia 10 de dezembro, o movimento realiza ainda o CEFx, Congresso Edificações do Futuro, voltado à construção sustentável, prédios inteligentes e eficiência energética. Inscreva-se pelo site: www.congressocefx.com.br
Acompanhe o Webinar com Felipe Carvalho: https://comunica.bio/webinar-felipe-carvalho