As terras raras constituem um grupo de 17 elementos químicos, compreendendo os 15 lantanídeos da tabela periódica, além do escândio e do ítrio, que se tornaram o “ouro mineral” do século XXI. Essenciais para a transição energética global e para a viabilidade de tecnologias de ponta, esses metais possuem propriedades magnéticas, ópticas e catalíticas únicas, difíceis de serem substituídas.
Nem “Terras”, nem “Raras”
Embora não sejam, a rigor, nem “terras” nem “raras”, esse nome é uma herança histórica do final do século XVIII. Naquela época, a palavra “terra” era utilizada para descrever óxidos minerais, e o adjetivo “rara” foi adotado devido à extrema dificuldade tecnológica para isolar e purificar esses elementos, além dos obstáculos de obtê-los em concentrações economicamente viáveis. Na realidade, esses metais são relativamente abundantes na crosta terrestre. O cério, por exemplo, é mais abundante que o cobre ou o chumbo. O verdadeiro desafio reside no fato de que eles aparecem dispersos no solo e misturados a outros minerais em baixíssimas concentrações, exigindo processos químicos complexos, caros e ambientalmente sensíveis para a sua efetiva separação [1].
Terras raras estão presentes em celulares, computadores, equipamentos médicos, catalisadores, turbinas eólicas, veículos elétricos, sistemas de defesa e diversos componentes industriais. Por isso, elas tornaram-se estratégicas para a economia digital e para a transição energética.
Essa importância, paradoxalmente, cria uma contradição: tecnologias associadas à redução de emissões dependem de uma cadeia mineral capaz de produzir impactos ambientais e sociais significativos. Os problemas não se limitam apenas à abertura da mina. Eles abrangem a extração, beneficiamento, separação química, refino, transporte, fabricação e descarte de produtos. Assim, uma avaliação responsável deve considerar todo um ciclo de vida, envolvendo a relação custo-benefício, entre países, empresas, trabalhadores e comunidades locais [2] (imagem 1).
Aplicações tecnológicas e industriais de ponta
A demanda por esses minerais cresce de forma acelerada porque eles formam a espinha dorsal de tecnologias limpas e digitais. Entre suas aplicações mais críticas destacam-se [3]:
Superímãs e Motores Elétricos: Elementos como o neodímio e o disprósio são combinados para fabricar ímãs permanentes extremamente potentes e leves. Eles são vitais para os motores de veículos elétricos e para os geradores de turbinas eólicas.
Dispositivos Eletrônicos: Pequenas frações de terras raras garantem as cores vibrantes das telas de smartphones e TVs, além do funcionamento de lasers, fibras ópticas e alto-falantes de alta fidelidade.
Defesa Aeroespacial: Devido à estabilidade térmica e magnética em condições extremas, são aplicados em sistemas de mísseis teleguiados, radares, drones de combate e aeronaves militares.
Impactos ambientais
Transformação da paisagem e perda de biodiversidade: A implantação de minas, especialmente a céu aberto, exige a remoção de vegetação, escavação, abertura de estradas e instalação de depósitos de material estéril e rejeitos. Essas intervenções modificam o relevo, fragmentam habitats e podem reduzir a biodiversidade. Além desses pontos, a movimentação de grandes volumes de rocha favorece processos de erosão, assoreamento de cursos d’água e dispersão de poeira. Mesmo quando a área diretamente minerada é limitada, as vias de acesso, linhas de energia e estruturas auxiliares ampliam a nocividade dessa atividade.
Consumo e contaminação da água: A separação de elementos químicos costuma envolver trituração, flotação, lixiviação e sucessivas etapas químicas. Dependendo do depósito e da tecnologia empregada, o processo pode demandar grande quantidade de água e utilizar ácidos, sais e solventes. Vazamentos, drenagem inadequada ou tratamento insuficiente de efluentes podem levar metais e compostos tóxicos a rios, aquíferos e solos. A alteração da disponibilidade hídrica também pode gerar conflitos com o abastecimento humano, a agricultura e outras atividades econômicas.
Rejeitos tóxicos e materiais radioativos: Alguns minérios de terras raras estão associados ao tório e ao urânio. Nesses casos, o beneficiamento pode concentrar materiais naturalmente radioativos nos rejeitos. Se não houver caracterização, segregação, armazenamento seguro e monitoramento por longo prazo, há risco de exposição à poeira contaminada, ao radônio e ao transporte de radionuclídeos pela água. Além disso, lodos químicos e resíduos sólidos podem continuar gerando passivos ambientais após o encerramento da mina, o que torna indispensáveis garantias financeiras e planos de fechamento desde o início do projeto.
Energia, emissões e o paradoxo da transição verde: A mineração e o refino consomem energia em etapas como moagem, aquecimento, bombeamento e separação. Quando essa energia provém de combustíveis fósseis, a cadeia emite gases de efeito estufa e poluentes atmosféricos. Surge, portanto, um paradoxo: ímãs de neodímio e disprósio contribuem para turbinas eólicas e motores eficientes, mas sua produção não é automaticamente “verde”. O benefício climático do produto final deve ser comparado aos impactos gerados ao longo de toda a cadeia, evitando que a descarbonização transfira custos ambientais para regiões mineradoras [4].
Impactos sociais
Saúde das comunidades e dos trabalhadores: A exposição ocupacional à poeira mineral, reagentes químicos e materiais radioativos pode aumentar riscos respiratórios, dermatológicos e outros agravos, sobretudo quando faltam equipamentos de proteção, ventilação, monitoramento e atendimento médico. Comunidades próximas também podem ser afetadas pela deterioração da qualidade do ar e da água. Esses riscos não se distribuem de maneira igual. Famílias de baixa renda, trabalhadores terceirizados e populações rurais tendem a ter menor capacidade de evitar a exposição ou exigir reparação.
Território, deslocamentos e direitos
Atividades de extração podem alterar o uso da terra, elevar preços locais, pressionar serviços públicos e restringir o acesso a áreas de agricultura, pesca, turismo ou valor cultural. Quando a consulta é tardia ou meramente formal, aumentam a desconfiança e os conflitos. Povos indígenas e comunidades tradicionais enfrentam riscos particulares porque território, água, identidade cultural e modos de vida são inseparáveis. Nesses contextos, participação, transparência e respeito ao consentimento livre, prévio e informado são condições fundamentais para decisões legítimas.
Emprego, renda e desigualdade
A mineração pode gerar empregos, arrecadação e infraestrutura, mas esses benefícios frequentemente são temporários e distribuídos de forma desigual. A fase de construção tende a contratar mais pessoas do que a operação, que é tecnológica e especializada. Sem capacitação e políticas de compras locais, parte expressiva da renda pode sair da região, enquanto os custos ambientais permanecem. Municípios muito dependentes de um único projeto também ficam vulneráveis à oscilação dos preços internacionais e ao encerramento da mina [5].
Geopolítica e concentração da cadeia
A produção e, sobretudo, o processamento de terras raras são concentrados em poucos países. Essa estrutura cria dependência tecnológica, risco de interrupção do fornecimento e pressão para acelerar licenciamentos em novas regiões. A busca por segurança mineral pode estimular investimentos e diversificação, mas também favorecer decisões apressadas. Uma política responsável precisa evitar a substituição de uma dependência externa por zonas de sacrifício internas, nas quais determinadas comunidades suportam os danos enquanto os benefícios se concentram em outros lugares [6] (imagem 2).
Caminhos para reduzir os impactos
Não existe mineração sem impacto, mas é possível reduzir danos e tornar a distribuição de custos e benefícios mais justa. Para isso, são necessárias medidas integradas:
Planejamento e licenciamento rigorosos: avaliar impactos cumulativos, alternativas locacionais, disponibilidade de água, biodiversidade e riscos radiológicos antes da autorização.
Tecnologias mais limpas: reduzir o uso de reagentes perigosos, recircular água, melhorar a eficiência energética e adotar sistemas fechados de contenção e tratamento.
Gestão segura de rejeitos: monitorar estruturas, poeira, efluentes e radionuclídeos durante a operação e após o fechamento, com responsabilidade financeira definida.
Proteção social: garantir condições de trabalho seguras, vigilância em saúde, mecanismos de denúncia e reparação acessíveis.
Participação comunitária: assegurar informação compreensível, consulta significativa e influência real das populações sobre decisões que afetam seus territórios.
Economia circular: ampliar coleta, reparo, reuso e reciclagem de ímãs e equipamentos eletrônicos, além de projetar produtos mais fáceis de desmontar.
Rastreabilidade: exigir transparência sobre origem, processamento e desempenho socioambiental dos materiais ao longo da cadeia [7] [8].
O Tabuleiro geopolítico e o papel do Brasil
Atualmente, a China detém o monopólio global da cadeia produtiva, concentrando cerca de 60% da extração e mais de 90% do refino e da fabricação de ímãs permanentes. Essa hegemonia transforma as terras raras em uma poderosa ferramenta de barganha diplomática e econômica internacional (imagem 3).
O Brasil ocupa uma posição estratégica de destaque, possuindo a segunda maior reserva mundial desses minerais (cerca de 23% do total global). O subsolo brasileiro abriga grandes depósitos em complexos alcalinos e, vantajosamente, em argilas iônicas (como no projeto de Serra Verde, em Goiás), um tipo de minério que permite uma extração mais barata, fácil e com menor impacto ambiental comparado às rochas compactas tradicionais.
Embora o Brasil tenha um potencial geológico imenso, a produção nacional ainda é tímida. O grande gargalo do país não está em encontrar o minério, mas em dominar o ciclo tecnológico de separação e beneficiamento químico para deixar de exportar apenas a matéria-prima bruta de baixo valor e passar a fabricar os componentes industriais finais [9] [10] [11] [12].
Conclusões
As terras raras são essenciais para tecnologias contemporâneas e podem contribuir para sistemas energéticos de menor emissão. Entretanto, tratá-las apenas como solução tecnológica oculta os impactos da extração e do processamento. Degradação de ecossistemas, contaminação da água, geração de rejeitos, riscos à saúde, conflitos territoriais e desigualdade econômica mostram que a transição energética também precisa ser social e ambientalmente responsável.
O desafio, portanto, não é escolher entre utilizar ou abandonar esses elementos, mas definir como reduzir a demanda desnecessária, prolongar a vida dos produtos, recuperar materiais já extraídos e impor padrões elevados às novas operações. Com regulação eficaz, inovação, fiscalização independente e participação das comunidades, as terras raras podem apoiar o desenvolvimento sem repetir um modelo em que ganhos globais dependem de prejuízos locais permanentes.
Referências
[1] REVISTA GALILEU. O que são os minérios de “terras raras” e por que eles são alvo de disputa. 17 maio 2025. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/ciencia/noticia/2025/05/o-que-sao-os-minerios-de-terras-raras-e-por-que-eles-sao-alvo-de-disputa.ghtml. Acesso em: 4 out. 2026.
[2] SANTOS, L. B. dos; CURI, R. Energias limpas, minerais críticos e novas dependências. Ambiente & Sociedade, v. 25, 2022. Disponível em: https://www.scielo.br/j/asoc/i/2022.v25/. Acesso em: 4 out. 2026.
[3] ITAÚ BBA. Terras raras e a cadeia de tecnologia. São Paulo: Blog Itaú BBA, 2025. Disponível em: https://blog.itau.com.br/ibba/terras-raras-e-a-cadeia-de-tecnologia. Acesso em: 4 out. 2026.
[4] LINS, Fernando A. Freitas. Água e energia na mineração; tecnologias para a sustentabilidade ambiental. In: LINS, Fernando A. Freitas; RIZZO, Andrea C. (org.). Recursos minerais no Brasil: problemas e desafios. Rio de Janeiro: CETEM/USP, 2018.
[5] SANTOS, Júlio Edstron Secundino. Mineração de futuros: terras raras, transição energética e o novo pacto social. Revista Regeo, São José dos Pinhais, v. 16, n. 5, p. 1–34, 2025. ISSN 2177-3246.
[6] SANTOS, Elaine. O ano das terras raras sob um olhar sociológico. Jornal da USP, São Paulo, 15 dez. 2025. Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/elaine-santos/o-ano-das-terras-raras-sob-um-olhar-sociologico/. Acesso em: 4 out. 2026.
[7] SÁNCHEZ, Luis Enrique. Avaliação de impacto ambiental: conceitos e métodos. 3. ed. São Paulo: Oficina de Textos, 2020. ISBN 978-65-86235-03-6.
[8] BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Plano Nacional de Mineração 2050. Brasília: MME, 2022.
[9] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY. Global supply chains of critical minerals. Paris: IEA, 2024.
[10] U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Mineral commodity summaries 2026. Reston, VA: USGS, 2026. Disponível em: https://pubs.usgs.gov/publication/mcs2026. Acesso em: 4 out. 2026.
[11] SERVIÇO GEOLÓGICO DO BRASIL. Avaliação do potencial de elementos de terras raras no Brasil: relatórios técnicos. Brasília: SGB, 2024.
[12] CENTRO DE TECNOLOGIA MINERAL. Desafios tecnológicos para o beneficiamento de terras raras no Brasil. Rio de Janeiro: CETEM/MCTI, 2023.