O Impacto do Progresso e a Evolução do ESG no Brasil

CAMILA MATTANA BUGARIM – Lidera a CM Consultoria e Educação Ambiental, há mais de quinze anos, oferecendo consultoria estratégica em ambiental, social e governança (ESG) para empresas que buscam adotar práticas regenerativas e sustentáveis. Também é Head de ESG da PARSEC Engenharia.

É fundadora e apresentadora do Podcast Geração ESG, compartilhando insights valiosos e promovo diálogos relevantes sobre ESG, ajudando indivíduos e organizações a desenvolverem uma mentalidade transformadora. Sua missão é impulsionar mudanças sustentáveis e disseminar conhecimento prático para criar um impacto significativo no mundo corporativo e na sociedade.

Todo ativo gera um passivo — uma reflexão sobre o desenvolvimento e seus desafios no Brasil, por Camila Mattana

Minha trajetória pessoal começou a se transformar quando, ainda criança, recebi a notícia de que parte da propriedade da minha família poderia ser desapropriada para a instalação de linhas de transmissão, dentro da bacia de impacto da Usina Hidrelétrica de Itaipu. Desde cedo, aprendi a observar os dois lados do desenvolvimento: o progresso que traz benefícios, mas também os impactos que nem sempre são devidamente compensados.

 Foi assim que começou minha curiosidade acerca de como poderíamos unir as duas faces da moeda: o passivo para se ter um ativo. Quando escolhi a minha profissão de engenharia ambiental, ela era apontada como uma carreira do futuro. Vivia em uma região cercada por rios e florestas, onde o contato com o meio ambiente era constante, mas onde faltava algo essencial: eletricidade. Cresci num lugar rico em recursos naturais, mas sem acesso a serviços básicos.

Hoje moro em uma casa abastecida por energia solar, mas jamais esqueço que o caminho até aqui foi repleto de contradições. Para gerar energia e trazer conforto à sociedade, alguém pagou a conta ambiental — seja com o desmatamento, com o deslocamento de populações ou com a alteração irreversível de ecossistemas. A pergunta que sempre me acompanhou é: quem paga a conta do impacto gerado?

O ESG como direção para os negócios

Ainda não é óbvio para todos o que realmente significa ESG. No início, a sustentabilidade era vista quase como um ato de filantropia, movido por paixão e propósito social. Mas, ao longo dos anos — especialmente após a pandemia — o ESG assumiu um caráter mais pragmático. Tornou-se um conjunto de diretrizes para orientar negócios em direção a modelos mais limpos, eficientes e alinhados com as expectativas do mercado e da sociedade.

ESG não é apenas sobre gastos. É sobre geração de valor. Empresas que integram boas práticas ambientais, sociais e de governança constroem cadeias de suprimentos mais éticas, otimizam processos, reduzem riscos e aumentam sua reputação. Trata-se de buscar fornecedores certificados, utilizar recursos rastreáveis e apostar em modelos circulares de produção e consumo. Quem ainda não trilha nesse caminho precisará, em breve, se adequar.

O novo consumidor e a economia circular

O consumidor moderno é ativo, crítico e quer saber a origem do que consome. Comunicação clara e transparente é essencial. Empresas que não se posicionarem de forma ética e responsável serão questionadas publicamente. Hoje, qualquer pessoa tem acesso à informação e pode influenciar a opinião pública.

Não por acaso, grandes corporações de diferentes setores têm investido em mercados sustentáveis, como energia limpa e reciclagem. O Brasil caminha para uma economia cada vez mais circular, onde o resíduo de hoje é o insumo de amanhã. A pergunta que fica é: se a sua empresa deixar de existir hoje, que impacto ela deixaria no mundo?

Oportunidades em meio à transição energética

O Brasil está passando por uma transição energética. Até 2027, teremos um mercado livre de energia mais amplo, onde cada consumidor poderá escolher de quem comprar eletricidade — assim como escolhemos nossos serviços de internet. Essa transição abre portas para novos modelos de negócios, como fazendas solares particulares e cooperativas energéticas.

No entanto, a gestão pública ainda enfrenta desafios. Temos boas leis, recursos abundantes e profissionais capacitados. Mas então onde se encontra o problema desta grande diferença social que assombra o Brasil? Talvez falte integração entre as políticas públicas e a realidade local. Não faz sentido aplicar a mesma legislação em regiões tão distintas como o sertão nordestino e a região metropolitana de São Paulo. Precisamos de soluções adaptadas às diferentes realidades do país.

Hidrelétrica de Itaipu, terceira maior do mundo, é compartilhada por Brasil e Paraguai. A renegociação do tratado bilateral sobre a usina tem sido marcada por tensões e desavenças sobre as tarifas de energia (Imagem: John Holmes / Alamy) 

O papel do agro e da construção civil

O agronegócio e a construção civil, frequentemente apontados como vilões ambientais, também podem ser protagonistas da transformação sustentável. Precisamos de residências para morar e precisamos da comida, fonte única oriunda do agro, para nos alimentar, e isso não existe outra forma para ser feito. A questão não está em parar essas atividades, mas em torná-las mais eficientes e sustentáveis. O pequeno produtor rural, por exemplo, precisa de incentivos para permanecer no campo e produzir de forma equilibrada, evitando o êxodo rural e garantindo segurança alimentar.

Um país em construção

As mudanças estruturais no Brasil esbarram em ciclos políticos curtos e, por vezes, instáveis. Em quatro anos, nem sempre é possível implementar mudanças profundas. A continuidade de políticas públicas sustentáveis é essencial para garantir progresso real.

Ainda temos mais de 40% dos municípios brasileiros descartando resíduos de forma inadequada. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê incentivos fiscais para reciclagem, existe há mais de 15 anos, mas pouco avançou em algumas regiões. Precisamos superar esses gargalos.

O futuro é colaborativo e inclusivo

O caminho para soluções sustentáveis passa pela colaboração. Empresas, governos e sociedade civil precisam sentar-se à mesma mesa, dialogar e construir juntos. Somente assim conseguiremos alinhar desenvolvimento econômico, justiça social e equilíbrio ambiental.

A transição para energias limpas e tecnologias sustentáveis já está em curso. O Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e pode ser protagonista global nesse novo cenário.

Todavia, todo mundo pode e deve contribuir com a sua opinião e o seu olhar sobre essa lógica. O importante é estarmos todos alinhados ao que está acontecendo no Brasil e no País, e contribuir.

Quando falamos da contribuição feminina, por exemplo, podemos falar que as mulheres pensam e somam também como o coração. A transformação precisa acontecer sim na emoção e não só na razão. É preciso enxergar que precisamos do planeta em ordem, e que nem tudo é sobre o dinheiro, mas sim sobre o propósito, é o próprio futuro de todos. É uma questão de lógica e de continuidade. Como empreendedores, é preciso escolher melhor em todos os aspectos. E como consumidor a mesma coisa.

Outro detalhe importante, é ditar as novas regras já para as crianças, pois elas são o nosso futuro no presente. Elas merecem e querem estar desde já engajadas e envolvidas em decisões globais.

Enfim, onde estivermos reunidos, cada um de nós,  tem a condição de influenciar, seja pelo exemplo, ou pela ponte que a informação é capaz de atravessar, e impactar positividade o seu próprio ecossistema.

A reflexão que deixo é: quem está disposto a construir esse futuro agora e pagar a conta da sua existência?

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