Energia solar chega às cooperativas de reciclagem de Montes Claros e promete transformar a vida dos catadores
Prefeitura inicia licitação para instalar kits fotovoltaicos em dois galpões do programa Minha Casa, Minha Vida, com expectativa de economia de até 95% na conta de energia e impacto direto na renda de centenas de famílias.
Uma iniciativa que combina energia limpa, inclusão social e fortalecimento da economia circular está ganhando forma em Montes Claros, no norte de Minas Gerais. A Prefeitura Municipal está conduzindo um processo de licitação para contratar empresa especializada na aquisição e instalação de placas solares destinadas a beneficiar moradores de residenciais do Programa Minha Casa, Minha Vida que exploram a atividade de reciclagem.
A proposta é simples e direta: reduzir o peso da conta de energia sobre as cooperativas de catadores, liberar recursos para melhorar as condições de trabalho e, com isso, ampliar a renda das famílias que dependem da reciclagem como principal fonte de sustento.
Dois galpões, um mesmo objetivo
Os equipamentos, dois kits solares fotovoltaicos, serão instalados em galpões de associações de reciclagem localizados no Bairro Vera Cruz e no Distrito Industrial, trazendo vantagens ambientais, econômicas e de sustentabilidade.
O impacto esperado é expressivo. Estima-se uma economia nas contas de energia de até 95%, uma vez que nos galpões são utilizados equipamentos como prensas hidráulicas, máquinas de confeccionar vassouras com garrafas PET e elevadores de cargas, entre outros. Esses equipamentos, essenciais para o funcionamento das cooperativas, são grandes consumidores de energia elétrica, e é justamente esse gasto fixo que compromete a viabilidade financeira de muitas associações ao longo do ano.
Famílias beneficiadas e fortalecimento comunitário
A iniciativa vai além da instalação dos painéis. O trabalho social será executado pela Diretoria de Habitação Popular e Cidadania da Secretaria de Desenvolvimento Social, com o objetivo de fomentar vínculos territoriais e o empoderamento das famílias que residem nos residenciais do Minha Casa, Minha Vida Vitória I, Vitória II, Rio do Cedro, Monte Sião I, Monte Sião II, Minas Gerais, Monte Sião IV e Recanto das Águas.
O projeto reforça uma compreensão cada vez mais consolidada entre gestores públicos: a transição energética não precisa ser exclusividade de grandes empresas ou condomínios de alto padrão. Quando bem direcionada, a energia solar pode chegar justamente onde o impacto é mais necessário, e onde a conta de luz pesa mais sobre o orçamento.
Montes Claros e sua tradição na reciclagem
A cidade tem uma relação consolidada com o setor de reciclagem. A Prefeitura de Montes Claros mantém parceria com cinco organizações de catadores que prestam serviços de coleta seletiva de materiais recicláveis na área urbana do município. Esse ecossistema de associações já opera há anos, mas convive com desafios estruturais, entre eles, os custos operacionais elevados que reduzem a margem de renda dos trabalhadores.
Dados municipais indicam que cerca de 30% dos resíduos sólidos recolhidos mensalmente em Montes Claros, aproximadamente 1.940 toneladas por mês, têm potencial de reciclagem. Um volume expressivo que passa, em grande parte, pelas mãos dessas associações. Fortalecer essas cooperativas com infraestrutura energética mais eficiente é, portanto, investir diretamente na cadeia da economia circular da cidade.
Segundo dados do CEMPRE – Compromisso Empresarial pela Reciclagem, os catadores são responsáveis por 90% das matérias-primas que voltam ao ciclo produtivo da indústria. Ainda assim, ficam com apenas 10% do lucro gerado nesse processo. Reduzir os custos operacionais dessas associações é uma forma concreta de reequilibrar essa equação.
Energia solar: um investimento que se paga ao longo do tempo
A energia solar é limpa, renovável e inesgotável, com baixo custo de manutenção e longa vida útil. Sistemas fotovoltaicos podem funcionar por mais de 25 anos, o que transforma esse investimento em uma escolha estratégica de longo prazo para qualquer organização que busca estabilidade financeira e previsibilidade nos custos.
Para cooperativas de reciclagem, que operam com margens reduzidas e alta dependência de equipamentos energointensivos, a equação é ainda mais favorável: a economia gerada mês a mês pode ser revertida em melhorias operacionais, ampliação da capacidade produtiva e melhores condições de trabalho para os catadores.
Um modelo replicável
A experiência de Montes Claros aponta um caminho que outras prefeituras brasileiras podem seguir. A combinação entre energia solar, cooperativismo e políticas de habitação social cria uma sinergia rara, e altamente eficiente, entre sustentabilidade ambiental e inclusão produtiva.
Em um cenário onde o custo da energia segue pressionando o orçamento das famílias de baixa renda e das organizações que dependem de trabalho intensivo, iniciativas como essa mostram que a transição energética pode, e deve, ser também uma política de geração de renda e redução de desigualdades. Montes Claros dá o exemplo.
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Fontes consultadas:
CPG Click Petróleo e Gás
Portal Oficial da Prefeitura de Montes Claro
Secretaria de Serviços Urbanos de Montes Claros — Coleta Seletiva
MONTESUL — Associação Montes Claros de Catadores de Recicláveis