O futuro da eficiência energética no Brasil esteve no centro das discussões do Workshop de Aprimoramento do Programa de Eficiência Energética (PEE), realizado no dia 8 de maio, em Brasília. Promovido pela ANEEL em parceria com a GIZ, agência alemã de cooperação internacional, o encontro reuniu distribuidoras, especialistas, representantes do governo, entidades setoriais e empresas do mercado de energia para discutir caminhos voltados à modernização de um dos mais importantes instrumentos da política energética brasileira.
Mais do que um debate regulatório, o workshop reforçou o papel estratégico da eficiência energética em um momento de pressão crescente sobre o sistema elétrico nacional, avanço das metas de descarbonização e preocupação com possíveis impactos climáticos nos próximos anos.
Entre as entidades presentes, a AFABEE participou representada pelo conselheiro Paulo Valdoci Pereira, acompanhando as discussões sobre o aprimoramento do PROPEE e o fortalecimento da eficiência energética como vetor central para uma transição energética justa, sustentável e economicamente viável.
O que é o PEE e por que ele se tornou estratégico
Criado e regulado pela ANEEL, o Programa de Eficiência Energética (PEE) determina que distribuidoras de energia elétrica invistam parte de sua receita operacional em projetos voltados à redução do desperdício, modernização tecnológica e uso racional da energia no país.
Na prática, o programa financia ações que vão desde modernização da iluminação pública e substituição de equipamentos ineficientes até projetos industriais, comerciais, hospitalares e educacionais focados em redução de consumo e eficiência operacional.
Ao longo de mais de 26 anos, o PEE se consolidou como um dos principais mecanismos públicos de incentivo à eficiência energética no Brasil, desempenhando papel relevante na redução da demanda elétrica, no adiamento de investimentos em geração e expansão da rede e na mitigação de impactos ambientais.
Segundo dados apresentados no debate, estudos do Ministério de Minas e Energia apontam que os projetos de eficiência energética geram retorno médio aproximado de R$ 12,66 para cada R$ 1 investido, além de impactos positivos na geração de empregos e na competitividade econômica.
O papel das ESCOs no avanço da eficiência energética
Um dos temas centrais do workshop foi justamente o fortalecimento das ESCOs – Empresas de Serviços de Conservação de Energia, consideradas peças fundamentais na implementação prática da eficiência energética no país.
Representadas institucionalmente pela ABESCO, as ESCOs atuam diretamente na elaboração, desenvolvimento e execução de projetos capazes de reduzir desperdícios energéticos em diferentes segmentos da economia.
Na prática, essas empresas são responsáveis por transformar diretrizes regulatórias em resultados concretos, conectando tecnologia, engenharia, gestão e inovação para entregar economia de energia, redução de custos operacionais e diminuição de emissões.
Durante o encontro, representantes do setor defenderam maior integração entre o ambiente regulatório e a realidade operacional das empresas que executam os projetos no campo. A avaliação é que o aprimoramento do PEE depende não apenas de ajustes normativos, mas também da escuta ativa de quem atua diretamente na implementação das soluções.
A participação das ESCOs nas discussões também reforça a percepção de que eficiência energética deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser tratada como instrumento estratégico de competitividade econômica, segurança energética e modernização da infraestrutura nacional.
Eficiência energética como “primeiro combustível”
Outro conceito amplamente debatido no evento foi o da eficiência energética como “primeiro combustível”, definição adotada pela International Energy Agency (IEA).
A ideia parte do princípio de que a energia mais barata, limpa e sustentável é justamente aquela que deixa de ser desperdiçada. Em um cenário de crescimento do consumo, pressão tarifária e necessidade de expansão da matriz elétrica, investir em eficiência passa a ser tão importante quanto ampliar a geração de energia.
Esse entendimento ganha ainda mais relevância diante das preocupações com os efeitos climáticos previstos para 2026. Especialistas presentes no workshop alertaram para a possibilidade de impactos associados ao El Niño, que podem pressionar o sistema elétrico e provocar mudanças nas bandeiras tarifárias já nos próximos meses.
O tema trouxe à memória episódios críticos do setor elétrico brasileiro, como o apagão de 11 de março de 1999, considerado um dos maiores blecautes da história mundial, e a crise hídrica de 2021, quando a bandeira vermelha “escassez hídrica” elevou significativamente o custo da energia no país.
Modernização regulatória e transição energética
O workshop promovido pela ANEEL e pela GIZ também evidenciou que o Brasil vive um momento decisivo na construção de uma política energética mais eficiente e sustentável.
Além da AFABEE e da ABESCO, participaram das discussões representantes da ABRADEE, da Empresa de Pesquisa Energética, da ENBPar, especialistas do Ministério de Minas e Energia, distribuidoras, academia e conselhos de consumidores.
O consenso entre os participantes é que o avanço da eficiência energética depende de um ambiente regulatório moderno, previsível e conectado às transformações tecnológicas do setor elétrico.
Mais do que reduzir consumo, a eficiência energética passa a ser vista como ferramenta estratégica para garantir segurança energética, aliviar custos sistêmicos, ampliar competitividade e acelerar a transição energética brasileira.
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