Mercado contabiliza 69,46 milhões de certificados até 20 de agosto, crescimento de 7,3% sobre o ano anterior; mesmo cortes na geração renovável não frearam a expansão
O mercado brasileiro de I-RECs (Certificados Internacionais de Energia Renovável) alcançou, em menos de oito meses de 2026, um volume superior ao registrado em todo o ano de 2025. Os dados são do Instituto Totum, emissor local dos certificados.
Até 20 de agosto de 2026, foram emitidos 69,46 milhões de certificados no país, superando em 7,3% os 64,74 milhões contabilizados durante todo o ano anterior. Cada I-REC corresponde a 1 MWh de energia elétrica gerada a partir de uma fonte renovável, permitindo rastrear a origem da eletricidade e comprovar, de forma auditável, que determinado volume de energia renovável foi produzido e associado ao consumo de uma empresa.
Crescimento sustentado desde 2020
Desde 2020, quando foram emitidos pouco mais de 4 milhões de certificados, o mercado brasileiro acumula crescimento superior a 1.600%. O avanço mais expressivo ocorreu entre 2021 e 2022, quando o volume mais que dobrou, passando de 9,21 milhões para 21,87 milhões de certificados.
A emissão de I-RECs aumenta todos os anos desde então, impulsionada por dois fatores conjugados: a expansão da geração renovável no Brasil, com aumento da capacidade instalada de usinas solares, eólicas, hidrelétricas e de biomassa, e o avanço do mercado livre de energia, que permite que mais consumidores contratem eletricidade de fornecedores diferentes e associem o consumo a atributos ambientais certificados.
Curtailments não afetaram o mercado
Um dos pontos de atenção do setor era o impacto dos curtailments, reduções na geração de energia renovável por motivos relacionados ao sistema elétrico. Teoricamente, como os I-RECs são emitidos com base na eletricidade efetivamente gerada, o corte na produção diminuiria a oferta potencial de certificados.
Na prática, isso não se refletiu no mercado. Fernando Giachini Lopes, CEO do Instituto Totum, explica:
“Os números dos últimos cinco anos demonstram um mercado em franca expansão, impulsionado pela combinação de geração renovável crescente, metas corporativas de sustentabilidade e demanda crescente por comprovação de consumo de eletricidade renovável.”
Lopes estima que o mercado deva crescer entre 15% e 20% neste ano, considerando a sazonalidade do segundo semestre.
Demanda corporativa se mantém firme
Empresas compram I-RECs para compensar emissões de gases de efeito estufa associadas ao consumo de eletricidade, classificadas como emissões de Escopo 2 pelo Greenhouse Gas Protocol.
Fellipe D’Alcantara, diretor de trading da Comerc Energia, empresa que negociou cerca de 36 milhões de I-RECs nos últimos cinco anos, afirma que o impacto dos curtailments sobre a dinâmica do mercado brasileiro tem sido limitado. Isso reflete a forte participação de fontes renováveis na matriz elétrica nacional e uma oferta de certificados que continua superior à demanda.
A Comerc, que em 2023 lançou junto à Vibra Energia uma mesa de negociação dedicada a créditos de carbono e mercados ambientais, também observa que empresas com agendas climáticas mais consolidadas não recuaram nas metas de descarbonização, mesmo com o recuo de algumas corporações globais.
“O que estamos vendo é maior seletividade: as empresas buscam soluções mais alinhadas às suas metas, com maior rastreabilidade e mais consistentes com suas narrativas de sustentabilidade.”, Fellipe D’Alcantara, Comerc Energia
Novos entrantes e valor de mercado
O mercado brasileiro de I-RECs gera, segundo estimativas preliminares, cerca de R$ 200 milhões por ano. Também tem atraído novos participantes, especialmente empresas de pequeno e médio porte, movimento que pode estar ligado à necessidade de atender expectativas de fornecedores, clientes e demais stakeholders, criando uma externalidade positiva para a percepção de marca.
Cecilia Essinger, gerente de certificados de uma das empresas geradoras, que emitiu 11,9 milhões de I-RECs apenas em 2025, confirma que o mercado passou a atrair perfis mais diversos. Além de eólica, solar e hidrelétrica, a energia gerada a partir de biomassa também qualifica para certificação.
Perspectivas regulatórias
O setor acompanha mudanças regulatórias em discussão que podem ter implicações significativas nas estratégias de aquisição de atributos ambientais, na precificação de certificados e na forma como as emissões de Escopo 2 são reportadas.
Para Lopes, do Instituto Totum, essas mudanças reforçam a importância de mercados de rastreabilidade robustos como o I-REC e podem aumentar a demanda por certificados com maior granularidade temporal e geográfica, ou seja, que permitam identificar não apenas a origem da energia, mas também o momento exato em que foi gerada.
Toda semana, o Portal Ecogateway publica análises de especialistas sobre energia, sustentabilidade e o futuro do setor.
Fontes Consultadas:
Canal Solar: https://canalsolar.com.br/brasil-ja-emitiu-mais-i-recs-2026/
Valor Internacional – O Globo: https://valorinternational.globo.com/markets/news/2026/08/07/clean-energy-certificates-continue-growing-despite-curtailments.ghtml
Imagem: Anamirez