Características e desafios do sistema elétrico brasileiro 

Para que as discussões sobre a transição energética no Brasil aconteçam com a profundidade e seriedade que esse tema merece, é necessário conhecer o Sistema Interligado Nacional (SIN), algo que este artigo procura fazer de forma introdutória. 

Introdução 

A configuração institucional atual do SIN foi consolidada a partir das reformas do setor elétrico no final da década de 1990, especialmente com a Lei nº 9.648/1998 e a criação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) [1]. 

O sistema elétrico brasileiro é um dos mais complexos e extensos do mundo, se destacando pela sua matriz predominantemente renovável e a sua alta interconexão entre todas as regiões do país. No entanto, o avanço da transição energética e as mudanças climáticas impõem desafios estruturais profundos para a segurança no fornecimento de energia elétrica e a modicidade tarifária. 

Estrutura e Características do Sistema 

O sistema brasileiro de produção e transmissão de energia elétrica é um sistema hidro-termo-eólico de grande porte, com predominância de usinas hidrelétricas, com múltiplos proprietários. O SIN é formado por quatro subsistemas: Sul, Sudeste/Centro-Oeste, Nordeste e Norte, embora ainda existam localidades atendidas por sistemas isolados [2]. Ele é operado por meio de modelos complexos de simulações, coordenadas e controladas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), cuja atuação é fiscalizada e regulada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) [3]. 

A interconexão dos subsistemas elétricos nacionais é feita por meio de linhas de transmissão (imagem 1), propiciando a transferência de energia entre os subsistemas, o que possibilita a complementaridade entre os regimes hidrológicos das suas bacias. A integração entre os recursos de geração e transmissão permite a segurança e economicidade no atendimento ao mercado de energia [2]. 

Imagem 1. Linhas de transmissão 

A capacidade instalada de geração do SIN é composta, principalmente, por usinas hidrelétricas distribuídas em dezesseis bacias hidrográficas nas diferentes regiões do país. Nos últimos anos, a instalação de usinas eólicas, principalmente nas regiões nordeste e sul, apresentou um forte crescimento, aumentando a importância dessa geração para o atendimento do mercado. As usinas térmicas, em geral localizadas nas proximidades dos principais centros de carga, desempenham papel estratégico relevante, pois contribuem para a segurança do sistema. Essas usinas são despachadas em função das condições hidrológicas vigentes, permitindo a gestão dos estoques da água armazenada nos reservatórios das usinas hidrelétricas, para assegurar o atendimento futuro [2].  

Cada fonte de energia tem seu papel estratégico, com vantagens e desvantagens, cujas características são descritas a seguir: 

Hidrelétricas: A Base do Sistema. 
Vantagem: Oferecem grande capacidade de armazenamento e estabilidade. 
Desvantagem: Ficam vulneráveis a períodos de seca prolongada. 
Característica: Operam em cascata em várias bacias, permitindo o uso renovado da água. 

Eólicas e Solares: A Sustentabilidade da Expansão do Sistema. 
Vantagem: Baixo custo de geração de energia e emissão de carbono. 
Desvantagem: São fontes intermitentes, dependendo da presença de vento e sol.
Sinergia: O vento no Nordeste costuma ser mais forte nos meses de seca das hidrelétricas permitindo uma sazonalidade complementar. 

Termelétricas: A Garantia de Segurança. 
Vantagem: Geram energia sob demanda, independente do clima. 
Desafio: Custo de operação mais alto e maior impacto ambiental. 
Uso recomendado: Funcionamento como um “seguro”, poupando a água dos reservatórios quando o nível deles está baixo.   

Sistemas Isolados 

Atualmente, existem 212 localidades isoladas no país, a maioria delas na região Norte, nos estados de Rondônia, Acre, Amazonas, Roraima, Amapá e Pará. A ilha de Fernando de Noronha, em Pernambuco, e algumas localidades de Mato Grosso também se encontram nessa condição. Entre as capitais, Boa Vista (RR) é a única que ainda é atendida por um sistema isolado. O consumo nessas localidades é baixo e representa menos de 1% da carga total do país. A demanda por energia dessas regiões é suprida, principalmente, por térmicas a óleo diesel [2] (imagem 2). 

Imagem 2. Geração de energia elétrica através de gerador a diesel 

As Linhas de Transmissão 

As LT são componentes estratégicas do setor elétrico brasileiro. Elas conectam usinas geradoras com centros consumidores, permitindo que a energia produzida em diferentes regiões do país chegue às unidades consumidoras. Em um país de dimensões continentais como o Brasil o transporte de eletricidade é um desafio significativo, sendo essa infraestrutura fundamental para integrar fontes de geração e garantir maior confiabilidade ao abastecimento. 

A necessidade de grandes corredores de transmissão decorre da distribuição geográfica dos recursos energéticos brasileiros. Muitas hidrelétricas estão em bacias distantes dos principais centros urbanos (imagem 3); parques eólicos concentram-se especialmente no Nordeste; a geração solar avança em áreas com alta irradiação; e a maior demanda de energia está em regiões metropolitanas e polos industriais. As linhas de transmissão funcionam, portanto, como “rodovias elétricas”, transportando grandes blocos de energia em Alta Tensão (AT) e Extra Alta Tensão (EAT) para reduzir perdas e ampliar a eficiência do sistema. Sem elas, seria impossível viabilizar o SIN e garantir um abastecimento de eletricidade de forma confiável e segura. 

Imagem 3. Usina hidrelétrica de Itaipu 
Foto: Itaipu Binacional 

As LT transmitem eletricidade em AT e EAT devido ao critério de eficiência energética. Quando a eletricidade viaja por longas distâncias, os cabos condutores oferecem resistência, gerando perda de energia na forma de calor (efeito Joule). Para minimizar essas perdas, as subestações elevam a tensão elétrica para níveis de AT ou EAT, geralmente entre 69 kV e 760 kV. Como a potência é o produto da tensão pela corrente (P = V × I), aumentar a tensão (V) permite reduzir proporcionalmente a corrente (I) e consequentemente uma menor corrente reduzirá drasticamente as perdas ao longo do caminho, permitindo o transporte eficiente de energia elétrica por milhares de quilômetros. Pelo mesmo motivo, utiliza-se no Brasil a transmissão de energia elétrica em corrente contínua de alta tensão (High Voltage Direct Current (HVDC)), devido a redução das perdas por efeito corona, reatância e efeito pelicular, além dos custos menores com condutores e estruturas (torres). Geralmente para distâncias maiores que 600 ou 800 km o HVDC torna-se mais barato do que a transmissão em corrente alternada. 

Segundo dados da ONS, o Brasil possui 185.751 quilômetros de LT em alta e extra alta tensão, até julho de 2026 [4]. A expansão da transmissão exige planejamento, regulação e investimentos elevados. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) realiza estudos de expansão, o MME consolida diretrizes e programas de outorga, o ONS contribui com avaliações relacionadas à operação e à segurança do sistema, e a ANEEL conduz os processos de concessão e leilões.  

Os Grandes Desafios do Setor 

Apesar de sua qualidade, o sistema enfrenta transformações que demandam investimentos e readequações regulatórias, em relação à intermitência de fontes renováveis, causada pela inserção das usinas eólicas e solares. Como essas fontes introduzem volatilidade na geração ao dependerem de condições climáticas diárias, o sistema passa a exigir formas de armazenamento (backup) confiáveis, como usinas hidrelétricas com reservatórios ou termelétricas, para manter a estabilidade da frequência quando não há vento ou sol. 

Apesar da experiência acumulada, a expansão e manutenção das LT enfrentam gargalos logísticos e operacionais complexos no território nacional, como por exemplo: 

Dificuldades geográficas: Instalar torres gigantescas em densas florestas tropicais exige logística aérea e fluvial altamente especializada. 

Licenciamento ambiental: Conciliar o avanço de LT com a proteção de biomas sensíveis, terras indígenas e comunidades tradicionais depende de rigorosos estudos de impacto sócio ambiental. 

Harmonização da matriz energética: A rápida expansão das usinas eólicas e solares em locais distantes por vezes satura as LT existentes, exigindo novos leilões de transmissão para escoar essa energia limpa para o resto do país. 

Fatores Climáticos: Eventos extremos, como tempestades severas, queimadas sob as faixas de servidão e descargas atmosféricas necessitam de monitoramento preventivo constante para evitar apagões no sistema. 

Para enfrentar esses desafios é necessário investir em novas tecnologias, como a inserção de redes inteligentes (Smart Grids), o uso de drones dotados de inteligência artificial para inspeção de cabos e isoladores e a instalação de sistemas de armazenamento por baterias de grande porte nas subestações. Nos próximos anos, a transmissão deverá ser cada vez mais orientada por três prioridades: ampliar a capacidade de escoamento das fontes renováveis, aumentar a resiliência da rede diante de eventos climáticos extremos e modernizar a operação com tecnologias digitais. Sistemas de monitoramento em tempo real, sensores, automação de subestações e análise de dados tendem a ganhar importância para antecipar falhas, otimizar manutenções e melhorar a tomada de decisão operacional.  

Conclusão 

O SIN é uma das principais vantagens estruturais do setor elétrico brasileiro, pois permite aproveitar a diversidade regional de recursos energéticos e operar o sistema com maior segurança e eficiência. Entretanto, a expansão acelerada das fontes renováveis variáveis, a maior frequência de eventos climáticos extremos e a necessidade de atender uma demanda crescente exigem novos investimentos em transmissão, armazenamento, digitalização e planejamento integrado. A transição energética brasileira, portanto, não deve ser compreendida apenas como substituição de fontes, mas como uma transformação ampla da infraestrutura, da operação e da regulação do sistema elétrico. 

Referências 

1] Presidência da República, Casa Civil, Subchefia para Assuntos Jurídicos. LEI Nº 9.648, DE 27 DE MAIO DE 1998. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9648cons.htm. Acesso em 10 de agosto de 2026. 

2] Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O Sistema Interligado Nacional. Disponível em:  https://www.ons.org.br/paginas/sobre-o-sin/o-que-e-o-sin. Acesso em 4 de agosto de 2026. 

3] Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Sistema Interligado Nacional. Disponível em:  https://www.ana.gov.br/sar/sin. Acesso em 4 de agosto de 2026. 

4] Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Extensão das linhas de transmissão. Disponível em: https://www.ons.org.br/Paginas/resultados-da-operacao/historico-da-operacao/extensao_linhastransmissao.aspx . Acesso em 4 de agosto de 2026.

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