No ecossistema da infraestrutura e, de forma muito latente, no universo das Parcerias Público-Privadas (PPPs), habituamo-nos a uma liturgia quase sagrada. Para desenhar o futuro de uma concessão, busca-se frequentemente a aura reluzente das grandes consultorias, dos bancos estruturadores e dos saberes estritamente teóricos. Confeccionam-se milhares de páginas e planilhas complexas sob a promessa da precisão e da solução para as cidades. Contudo, na sombra dessa arquitetura sofisticada, reside uma ausência velada e perigosa: a voz do servidor público de carreira.
Aquele profissional que caminha há décadas pelas artérias do município, que conhece as rachaduras do território e guarda a memória institucional e viva da cidade, é, muitas vezes, relegado ao papel de mero espectador. Tratam-no como um simples carimbo no fim da jornada de estruturação, esquecendo que o papel aceita qualquer taxa de retorno, mas a realidade do solo sempre cobra a conta. Nenhuma auditoria externa, por mais brilhante que seja, capta em poucos meses a intuição e a vivência tecidas por anos de gestão pública na ponta. Desenhar um contrato sem a alma do servidor é como erguer uma casa ignorando quem domina as suas fundações.
O ciclo de vida de uma parceria revela essa fratura de forma inequívoca. Quando a licitação termina e os consultores recolhem seus mapas, a ilusão de prateleira se desfaz. É aí que a vida real do contrato começa. O fardo de fiscalizar, medir indicadores de desempenho e guiar uma Concessão ou PPP de longo prazo recai inteiramente sobre a estrutura permanente do governo, seja de qual esfera for.
Agora, convido à reflexão: se esse servidor não participou ativamente da gestação do projeto, como fará a gestão e o acompanhamento adequados? Muitas vezes, ele recebe essa responsabilidade sem sequer ter sido formado sobre o que é esse instrumento complexo, no caso das Concessões e PPPs. O resultado é previsível: o processo de monitoramento já nasce frágil, e o bem público fica desprotegido. E isso, muitas vezes prejudica os contratos, que acabam por não serem eficientes e eficazes por questões de falta de compreensão sobre seu potencial e metodologia, os quais se diferenciam dos contratos tradicionais em diversos tópicos.
Por isso, faço uma provocação a todos nós que atuamos na área, eu inclusive, que estruturamos, desenhamos matrizes de risco, escrevemos longos diagnósticos e conduzimos esse mercado. Precisamos repensar nossos métodos e construir um novo “território” onde o servidor seja, de fato, uma voz presente, atuante, ou seja, torne-se o coração da governança.
Valorizar o saber empírico de quem faz a máquina girar não é um capricho; é um ato profundamente pedagógico, um resgate de memória e o fortalecimento da nossa capacidade governamental.
As Parcerias Público-Privadas só cumprem a sua promessa de transformação quando o primeiro “P”, o Público, ergue-se com altivez e preparo.
A força de um governo não reside apenas em planilhas ou algoritmos, mas no sopro humano de quem vive e respira a gestão. Somente quando a técnica refinada abraça o saber de quem sente o pulso da cidade é que o contrato deixa de ser papel e se consolida em legado social.