Energia Solar Fotovoltaica e Autonomia Energética

Apesar da energia solar fotovoltaica atualmente contribuir de forma significativa para a matriz energética nacional [1], é necessário enfatizar uma das suas vantagens comparativas mais importantes, a sua autonomia energética, tema desse artigo.

Autonomia Energética.

A palavra autonomia origina-se da junção das palavras gregas autós (por si mesmo) e nómos (regra, norma ou lei). Etimologicamente, essa palavra significa a capacidade do estabelecimento das próprias leis, ou alguém agir por normas próprias [2].

Embora em estrito senso não sejam a mesma coisa, autonomia também pode significar independência,  in (negação), de (afastamento), pedere (ligação) e ia (condição). Por isso, no contexto desse artigo, autonomia energética significa a capacidade de algum grupo ou individuo gerar sua própria energia, sem depender, ou dependendo o mínimo necessário, de outros agentes.

 A dificuldade de acesso à energia pode ser denominada como pobreza energética. Nesse caso, sendo a energia um bem comercializado, a pobreza implica na falta de renda da população local para consumi-la, o que, em um círculo vicioso, consequentemente, aumenta ou mantém essa condição social, porque sem energia é impossível a obtenção de educação, saúde, emprego e renda de qualidade [3].

A autonomia energética corresponde ao desejo de independência de sistemas de fornecimento centralizados, sendo esse um motivo para o desenvolvimento de sistemas energéticos descentralizados (imagem 1), mesmo que não apresentem benefícios econômicos imediatos. Esse conceito, autonomia energética, envolve aspectos econômicos, sociais e políticos, não se limitando às questões técnicas de geração e consumo de energia [4].

Imagem 1. Geração fotovoltaica em comunidade isolada.

Em termos econômicos o custo da energia é um aspecto fundamental, sendo necessário convencer os investidores de que a autonomia energética, através de fontes renováveis e tecnologias de armazenamento, pode ser viável economicamente. Nesse caso, podem ser necessários investimentos públicos, para que tecnologias inovadoras sejam viabilizadas, principalmente pelas externalidades positivas que elas podem propiciar. A oferta de energia em comunidades isoladas pode criar novas possibilidades de integração, principalmente através de meios de comunicação mais modernos, que incentivem a educação e o teletrabalho para moradores desses locais.

Energia Solar Fotovoltaica Fonte de Autonomia.

Novas tecnologias estão modificando profundamente os modos de produção, distribuição e consumo de energia. Especificamente em relação à geração de energia de forma descentralizada, essas tecnologias podem solucionar, além de problemas ambientais, a falta de acesso à energia em comunidades isoladas. Por isso, o conceito de autonomia energética, a capacidade de um sistema de energia funcionar através de meios locais de produção, armazenamento e distribuição, pode possibilitar um maior desenvolvimento humano de comunidades isoladas ou carentes.

O  Brasil  possui  ótimos  índices  de  radiação  solar,  especificamente em regiões não alcançadas pelas redes de distribuição de combustível ou de energia elétrica, onde encontram-se comunidades isoladas, que por isso não têm acesso a bens e serviços básicos, como iluminação artificial, saneamento básico e telecomunicações. Embora muitas dessas comunidades possuam geradores, o custo dessa energia torna-se proibitivo, limitando assim o acesso a bens e serviços essenciais [5].

A energia solar fotovoltaica é obtida através da conversão da energia luminosa do sol, através dos seus fótons, em energia elétrica, sendo utilizadas para isso células fotovoltaicas, fabricadas predominantemente com silício semicondutor formando junções PN, distribuídas sobre uma superfície, que constitui o módulo fotovoltaico [6]. Embora o custo de aquisição dos módulos, inversores e demais componentes de um Sistema Fotovoltaico (SFV) (imagem 2) possa ser elevado, a duração desses componentes é alta, seu custo de manutenção baixo e a fonte de energia necessária gratuita [7] [8].

Imagem 2. Componentes de um SFV.

Graças às suas características técnicas um SFV pode ser dimensionado de forma modular, ou seja possibilitando uma melhor relação entra a área ocupada e a energia gerada por ele. Dessa forma, a autonomia significa também uma vantagem para o meio ambiente, já que não é necessária a ocupação de grandes áreas para reservatórios, linhas de transmissão ou redes de distribuição, reduzindo inclusive os custos para construção do sistema.

Devido ao acesso direto à fonte de energia, o fluxo de energia eletromagnética emitido pelo Sol, a energia solar fotovoltaica permite a eliminação dos custos de transporte da energia até o local onde ela será consumida e parcialmente do valor da energia em si, restando apenas os custos de instalação e manutenção do sistema fotovoltaico e de armazenamento dessa energia. Embora seja ideal para comunidades, ou instalações em geral, realmente isoladas, esse conceito de autonomia pode ser aplicado em edificações atendidas pelas distribuidoras de energia elétrica, mas que devido a sua localização ou razões econômicas se beneficiariam de uma autonomia parcial da distribuição convencional da energia elétrica (imagem 3).

Imagem 3. Sistema Fotovoltaico de Geração Distribuída.

Aspectos Negativos da Geração Distribuída (GD).

Sendo a geração solar fotovoltaica uma tendência inexorável, os obstáculos para sua expansão devem ser enfrentados. Entre os principais aspectos negativos da GD, que utiliza basicamente a energia solar fotovoltaica, encontram-se o aumento dos custos tarifários para os consumidores convencionais, a complexidade técnico- econômica para manutenção da estabilidade da rede elétrica e a intermitência da fonte solar.

Embora comunidades isoladas, por definição, não sejam atendidas por redes de distribuição de energia, elas dependem do avanço da geração solar fotovoltaica, devido ao progresso tecnológico e a redução de custos, na matriz elétrica nacional. Para isso é necessário que todos os atores envolvidos construam um projeto energético viável e socialmente justo, integrado em um projeto maior de nação. 

Conclusões.

Embora o atual processo de transição energética tenha como principal objetivo proteger o meio ambiente, através da utilização de fontes renováveis de energia, ele possibilita mudanças socioculturais mais profundas, entre as quais a autonomia do cidadão em relação ao fornecimento da energia que ele consome, com profundas implicações urbanas. Por isso é necessário refletir sobre qual a direção que esse processo deve seguir e quais objetivos ele pode alcançar.   

Referências.

1] Matriz Energética e Elétrica. Empresa de Pesquisa Energética. Ministério de Minas e Energia. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/abcdenergia/matriz-energetica-e-eletrica. Acesso em: 29/05/2026.

2] Houaiss, Antônio; Villar, Mauro de Salles. Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Instituto Antônio Houaiss, Editora Objetiva. 2001. ISBN: 8573023953.

3] Vieira, Henrique Corrêa; Pedrozo, Eugenio Avila.  Eletrificação na Amazônia brasileira: Contexto e possibilidades rumo ao desenvolvimento local. Anais do XVII Encontro Internacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente (ENGEMA). 2011.

4] Jouni K. Juntunen, Martiskainen, Mari. Improving understanding of energy autonomy: A systematic review. Renewable and Sustainable Energy Reviews. Volume 141, Maio 2021. Doi: https://doi.org/10.1016/j.rser.2021.110797

5] Marques, Rubéria Caminha; Krauter, Stefan C. W; Lima, Lutero C. de. Energia solar fotovoltaica e perspectivas de autonomia energética para o nordeste brasileiro. Rev. Tecnol. Fortaleza, v. 30, n. 2, p. 153-162, dez. 2009.

6] Santos, Sergio Roberto Silva dos. Avaliação da alteração das características elétricas de módulos fotovoltaicos devido a descargas atmosféricas indiretas. Dissertação, Programa de Pós-Graduação em Energia, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo. 2023.

7] Zilles, Roberto; Macêdo, Wilson Negrão; Galhardo, Marcos André Barros; Oliveira, Sérgio Henrique Ferreira de. Sistemas Fotovoltaicos Conectados À Rede Elétrica. Oficina de Textos. 2012. ISBN:9788579750526.

8] Villalva, Marcelo Gradella. Energia Solar Fotovoltaica Conceitos e Aplicações. Editora Érica. 2015. ISBN:9788536514895.

Assuntos

Mais lidos

21

1

Energia Solar Fotovoltaica e Autonomia Energética

2

Conquista histórica: Anápolis entra no seleto grupo das 22 cidades inteligentes do Brasil

3

Atibaia rumo à cidade inteligente: PPP vai universalizar LED em 25 mil pontos e digitalizar serviços urbanos até o fim de 2026

4

O setor elétrico brasileiro em 2026: Quando ter quase 90% de energia limpa não é suficiente

5

PPPs de cidades inteligentes e utilização da CICI – Contribuição de Iluminação e Cidades Inteligentes: Oportunidades e desafios atuais

Leia mais

Conexão CPIIC: A importância da proteção contra surtos com Sérgio Santos da Embrastec

Conexão CPIIC: Tecnologia a Serviço da Sociedade com Paulo Valente da SmartLampPost

Automação e Controle de Iluminação: o Futuro Sustentável Começa Aqui!

Conquista histórica: Anápolis entra no seleto grupo das 22 cidades inteligentes do Brasil

Atibaia rumo à cidade inteligente: PPP vai universalizar LED em 25 mil pontos e digitalizar serviços urbanos até o fim de 2026

O setor elétrico brasileiro em 2026: Quando ter quase 90% de energia limpa não é suficiente

PPPs de cidades inteligentes e utilização da CICI – Contribuição de Iluminação e Cidades Inteligentes: Oportunidades e desafios atuais

SIEN 2026: O maior seminário de energia nuclear da América Latina acontece esta semana no Rio de Janeiro.

Senado aprova R$ 630 milhões para transformar o Complexo do Pecém no maior hub de hidrogênio verde do Brasil

PUBLICIDADE