O que nos diferencia como espécie é a capacidade de criar ferramentas que ampliam nossa atuação, sobretudo em atividades críticas, massivas, repetitivas ou de risco. Nessa nossa jornada, nos últimos quase cem anos, o computador foi a ferramenta que mais promoveu rupturas: transformou dados em decisões, trouxe precisão e automação aos processos e redefiniu a velocidade com que operamos o mundo etc. Entretanto, a automação também se consolidou em sistemas como a aviação, onde pilotos automáticos cada vez mais sofisticados passaram a assumir funções críticas com elevada confiabilidade, aliviando a carga humana em viagens longas e exaustivas. Agora, o próximo salto já começou: a Inteligência Artificial não apenas executa, ela interpreta, aprende e antecipa, ao aliviar a carga de processos massivos e intensivos em informação, que exigiria elevados níveis de atenção e esforço humano, transformando dados em contexto e ampliando a precisão na tomada de decisões críticas.
Com investimentos já na casa de centenas de bilhões de dólares por ano e uma expectativa de geração de valor de trilhões na economia global na década que se avizinha, a Inteligência Artificial transcende setores e se consolida como uma verdadeira General Purpose Technology, capaz de impulsionar produtividade, crescimento e novos ciclos de investimento. Seu impacto se dissemina por toda a economia ao ampliar a capacidade de decisão e automação: das organizações às cidades, da indústria à geração e distribuição de insumos essenciais, como energia e gás, ainda que, como em outras grandes tecnologias, seus ganhos plenos dependam de tempo, adaptação e transformação estrutural; e em telecomunicações não é diferente.
Ponto de Inflexão em Telecom
Custos crescentes, receitas estagnadas e redes cada vez mais complexas: esse é o cenário atual do setor de telecomunicações, que chegou ao limite do modelo tradicional. São vários desafios simultâneos, a começar pela sustentabilidade econômico-financeira ameaçada pela discrepância entre o crescimento do tráfego de dados nas redes, da ordem de 30% a 40% ao ano, e o aumento apenas marginal da receita média do setor – o que resulta em margens operacionais comprimidas e endividamento elevado. Em muitos casos, o custo operacional consome até 70% da receita, sendo energia e manutenção os principais componentes. Esse cenário limita drasticamente a capacidade das operadoras de investir em inovação e modernização.
Além disso, as redes atuais operam em múltiplas gerações simultâneas, combinando fornecedores diversos, camadas legadas e arquiteturas emergentes como cloud, edge e redes privadas. Essa fragmentação intensifica a complexidade, eleva o risco de falhas e aumenta o tempo médio de reparo, ao mesmo tempo que a interoperabilidade permanece restrita. A pressão ambiental também cresce: com a demanda por capacidade computacional aumentando exponencialmente, estima-se que, até meados da década, metade do custo operacional das redes será destinado exclusivamente à energia e manutenção.
A experiência do cliente também reflete esse desequilíbrio. A satisfação média é baixa e grande parte dos consumidores muda de operadora após poucas experiências negativas. Canais de atendimento inconsistentes e pouca personalização geram frustração, enquanto plataformas digitais e OTTs redefinem as expectativas de serviço, capturando parte significativa do valor gerado. Apesar da urgência, a transição de operadoras tradicionais para empresas de tecnologia ainda é limitada. A maioria enfrenta obstáculos como legados tecnológicos, baixa integração entre áreas de TI, negócios e operação, escassez de talentos digitais e silos de dados, o que dificulta a inovação e compromete a competitividade estratégica.
Diante desse cenário, torna-se imperativo acionar novas alavancas de eficiência e monetização digital. A migração para um modelo de operações autônomas, com visibilidade ponta a ponta e integração inteligente de sistemas, é condição necessária para reduzir custos, antecipar falhas e sustentar a operação. A digitalização integral e a automação inteligente, impulsionadas por Inteligência Artificial, passam a ser os pilares para diferenciação, crescimento e sustentabilidade. A IA, nesse contexto, não é mais uma escolha tecnológica, mas um pré-requisito para viabilizar a nova geração de redes e serviços.
Telco-TechCo
Nesse contexto de pressão estrutural e necessidade de eficiência e resultados, emerge a reorganização do setor como uma resposta inevitável, entre elas a transformação de telco para techco. As operadoras começam a redesenhar seu papel na economia digital, deixando de atuar apenas como provedoras de conectividade para se posicionarem como plataformas digitais orientadas a dados, serviços e experiência. Essa transição reflete uma mudança mais ampla da indústria, na qual o valor deixa de estar no transporte de dados e passa a ser capturado na capacidade de gerar, orquestrar e monetizar inteligência, impulsionada por IA, cloud e novos modelos digitais, aproximando-se do perfil de empresas tecnológicas mais ágeis, inovadoras e centradas no cliente.
A Inteligência Artificial é o elemento central dessa transformação de telco→techco, permitindo não apenas maior eficiência operacional, mas principalmente a criação de novos serviços e fontes de receita. Redes tornam-se inteligentes, capazes de antecipar falhas, adaptar-se em tempo real e oferecer experiências personalizadas, enquanto as operadoras expandem sua atuação para soluções digitais em múltiplos setores, como: cloud, fintech, indústria e serviços baseados em dados. Assim, o setor se reposiciona de uma lógica de “capacidade vendida” para uma lógica de plataformas e serviços inteligentes, onde a conectividade é apenas a base sobre a qual se constroem ofertas inovadoras e de maior valor agregado.
Infraestrutura Crítica Digital
Ao mesmo tempo, as redes de telecom se tornam cada vez mais dependentes da infraestrutura digital, que, alavancada pelas aplicações de IA, passa a assumir caráter crítico para a soberania digital. A explosão da demanda por computação e inferência em tempo real está impulsionando um ciclo global de investimentos sem precedentes, com projeções de alguns trilhões em data centers até 2030, além de pressionar fortemente redes, energia e capacidade de processamento. Nesse contexto, a IA deixa de ser apenas uma camada lógica e passa a ser uma decisão de infraestrutura, elevando o papel das telecomunicações como elemento integrador desse ecossistema.
Esse movimento reforça que soberania digital não se limita mais ao controle de dados ou algoritmos, mas depende diretamente da capacidade de operar e governar infraestrutura crítica, data centers, redes e energia, sob jurisdição e controle próprios. À medida que a IA se torna base da produtividade, da inovação e do funcionamento de serviços essenciais, a infraestrutura digital passa a definir não apenas competitividade econômica, mas também autonomia tecnológica e segurança nacional, consolidando-se como um dos principais ativos estratégicos da economia contemporânea.
O futuro das redes
A IA também viabilizará o futuro das redes, que deixa de ser apenas sobre conectividade para se tornar uma plataforma inteligente, sensorial e adaptativa. A explosão de dispositivos conectados, a criticidade da latência e a integração entre humanos e máquinas exigem redes capazes de perceber, aprender e interagir em tempo real, abrindo caminho para experiências imersivas e contextuais. Nesse horizonte, o 6G, sucessor do 5G, com expectativa para o início da próxima década, surge como uma rede nativamente orientada por IA, integrando comunicação, computação e sensoriamento em um único sistema inteligente.
Com habilitadores como o ISAC (Integrated Sensing and Communication), a rede passa a utilizar seus próprios sinais para detectar objetos, mapear ambientes e compreender o contexto físico, funcionando como um sistema capaz de “ver” e “sentir” o mundo ao seu redor. Essa evolução, combinada com arquiteturas AI-native, onde algoritmos e agentes atuam em todas as camadas, do rádio ao serviço, permite operação autônoma, previsão de falhas e personalização em escala. Ao mesmo tempo, esse avanço impõe novas exigências à infraestrutura digital, com forte crescimento da demanda por computação, energia e edge distribuído, reposicionando as operadoras como protagonistas na entrega de serviços inteligentes. O resultado é uma mudança estrutural: redes não apenas transportam dados, elas interpretam, aprendem e agem, habilitando uma nova geração de serviços e consolidando a telecomunicação como base da economia orientada por IA.
A Inovação e o Futuro das Telecomunicações.
Sediado em Campinas, um dos principais polos tecnológicos do Brasil e com quase 50 anos de contribuições decisivas para o setor, o CPQD consolidou-se como um dos maiores centros de inovação com foco em TICs da América Latina. A organização evoluiu de um centro voltado às telecomunicações para um agente estratégico da transformação digital, atuando em múltiplos setores como financeiro e pagamentos e governo, fortalecendo o ecossistema nacional e sua autoridade tecnológica por meio de soluções, publicações e iniciativas como o CPQD TechCo Series, que traduz, de forma aplicada, a evolução do setor rumo a modelos orientados por dados e inteligência.
O CPQD também lidera o Centro de Competência Embrapii em Open RAN, o EXCCON, posicionando o Brasil na fronteira das redes abertas 5G e 6G ao viabilizar arquiteturas Open RAN orientadas por software e IA; como primeiro OTIC da América Latina e do Hemisfério Sul, o centro assegura interoperabilidade, segurança e inovação, estabelecendo as bases para redes mais abertas, inteligentes e autônomas.
Recentemente, o CPQD reforça seu papel como parceiro estratégico do Estado brasileiro ao liderar iniciativas estruturantes, como os projetos do Funttel (Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações) e o ECOS em parceria com a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), voltadas ao desenvolvimento de data centers sustentáveis, redes 6G orientadas por IA e soluções digitais avançadas, posicionando o Brasil em áreas-chave como 6G, inteligência artificial e cloud, com ganhos em eficiência, redução de custos e soberania digital.
Enfim, se o piloto automático redefiniu a aviação, a IA está redefinindo as redes e o CPQD, a partir de Campinas, um dos principais polos tecnológicos do país, atua conectando inovação, indústria, mercado e Estado para transformar 6G, IA e infraestrutura digital em realidade e posicionar o Brasil no centro dessa nova economia.
Referência: https://materiais.cpqd.com.br/cpqd-techco-series