A iluminação pública moderna, especialmente o LED de espectro azul, está sob escrutínio crescente da comunidade científica. Pesquisadora brasileira premiada internacionalmente alerta: a luz errada, no horário errado, não é apenas desperdício energético, é um problema de saúde pública e ambiental.
Existe um tipo de poluição que quase ninguém vê, mas que afeta praticamente todas as cidades do mundo. Não chega pelo ar, nem pela água. Ela chega pela noite, ou melhor, rouba a noite. É a poluição luminosa, e ela é muito mais séria do que parece.
No dia 15 de agosto de 2026, a arquiteta e lighting designer Silvia Carneiro sobe ao palco do projeto Verdes Tons, na Escola Municipal de Jardinagem de São Paulo (UMAPAZ), para falar sobre um tema que ela persegue há mais de uma década: os impactos da iluminação artificial no ser humano e no meio ambiente.
Silvia não é uma profissional qualquer do mercado de iluminação. É Dark Sky Defender da América Latina 2024, título concedido pela International Dark Sky Association, presidente da Comissão de Poluição Luminosa da União Brasileira de Astronomia, colaboradora da ABNT nos comitês de revisão das normas ABNT 5101 (Iluminação Pública) e ABNT 5413 (Iluminação de ambientes de trabalho), e coordenadora da revisão da norma ABNT ISO/CIE 8995-1. Em resumo: se alguém entende do que está falando quando o assunto é luz e seus efeitos, é ela.
O alerta que veio da medicina
Em junho de 2016, a American Medical Association (AMA), a maior associação médica dos Estados Unidos, fez uma manifestação pública que ecoou pelo mundo. O documento pedia a revisão imediata dos sistemas de iluminação pública e alertava que os sistemas de iluminação LED estavam evoluindo de maneira inadequada.
O problema central? O espectro azul presente na luz emitida por muitos LEDs brancos usados em iluminação pública.
A questão é biológica, não estética. Pesquisas recentes sobre ritmos circadianos, cronobiologia e cronoterapias demonstraram que a exposição à luz artificial à noite, especialmente a que contém o componente azul, suprime a produção de melatonina, o hormônio responsável por regular o sono e diversos processos fisiológicos essenciais.
A consequência é grave o suficiente para ter sido classificada como uma das causas do câncer, conforme estudos citados por Silvia Carneiro em suas pesquisas.
Por que o azul é o problema?
Para entender, vale lembrar como a luz funciona. A luz solar natural contém todos os comprimentos de onda do espectro visível. Ao entardecer, a luz natural se desloca para tons mais quentes, vermelho, laranja, âmbar, sinalizando ao corpo que o dia está terminando e que é hora de reduzir a atividade.
O problema com muitos LEDs de iluminação pública é que eles emitem uma luz fria e branca, rica em espectro azul, que imita a luz do dia. Quando essa luz atinge o olho humano à noite, o cérebro interpreta que ainda é dia. O ritmo circadiano se desregula. A melatonina não é liberada na quantidade certa, na hora certa.
E os efeitos não param nos humanos.
A natureza também não dorme direito
A poluição luminosa afeta a fauna de maneiras que estamos apenas começando a compreender. Aves migratórias que usam as estrelas para navegar se desorientam. Insetos noturnos, fundamentais para a polinização, são atraídos e mortos pelas luzes. Tartarugas marinhas, que deveriam seguir o brilho do horizonte sobre o mar, acabam indo em direção às cidades iluminadas.
Um estudo publicado na Universidade Federal do Ceará, com coautoria da própria Silvia Carneiro, investigou inclusive a relação entre a luz azul à noite e o comportamento de vetores de arboviroses, incluindo o mosquito da dengue. A pergunta era direta: A luz artificial estaria influenciando a proliferação de doenças? Os indícios apontam que sim.
As plantas também são afetadas. A fotoperiodicidade, o ciclo de luz e escuridão que regera floração, folhedo e dormência vegetal, é perturbada pela luz artificial excessiva. Pesquisadores da área de botânica já demonstram que o vermelho está se tornando o novo azul no debate sobre poluição luminosa botânica, com efeitos que se estendem aos ecossistemas urbanos inteiros.
A recomendação que o mercado insiste em ignorar
A International Dark Sky Association, entidade referência mundial no combate à poluição luminosa, recomenda algo aparentemente simples: O uso de fontes de luz artificial no espectro âmbar, que não contenham o espectro azul nem o UV, para ambientes exteriores e públicos.
A lógica é direta: Se o azul é o problema, remova o azul.
Mas a realidade do mercado de iluminação pública no Brasil caminha na direção oposta. A maioria dos projetos de retrofit de LED ainda especifica luminárias com temperatura de cor elevada (5000K ou mais), que emitem luz branca fria rica em espectro azul, exatamente o que a ciência recomenda evitar.
Há uma contradição evidente: no mesmo momento em que cidades investem bilhões em modernização de iluminação pública via PPPs, com justificativa de eficiência energética e sustentabilidade, podem estar instalando um problema de saúde pública e ambiental em larga escala.
O que precisa mudar
Para gestores públicos, fabricantes e integradores de sistemas de iluminação, a mensagem é clara:
- Temperatura de cor importa. Luminárias com espectro âmbar ou tons mais quentes (3000K ou menos) são significativamente menos prejudiciais que as de luz branca fria.
- Horário de operação importa. A iluminação adaptativa, que reduz a intensidade em horários de baixa circulação, não é apenas economia de energia, é mitigação de impacto biológico.
- Direcionamento importa. Luminárias que projetam luz para cima ou para os lados desperdiçam energia e amplificam a poluição luminosa. A luz deve ir onde é necessária, não para o céu.
- Norma técnica importa. A revisão das normas ABNT 5101 e a ISO/CIE 8995-1, em curso, pode, e deveria incorporar diretrizes mais rígidas sobre espectro luminoso em iluminação exterior.
Silvia Carneiro sintetiza o princípio com uma frase que deveria guiar todo projeto de iluminação: “Devemos fazer uso da luz correta no horário correto.”
Por que isso importa agora
O Brasil está no meio da maior onda de modernização de iluminação pública de sua história. Mais de 830 municípios estruturam projetos de iluminação e cidades inteligentes. As decisões tomadas hoje em relação às especificações técnicas desses projetos, incluindo o espectro luminoso, terão consequências por 15, 20 anos ou mais, que é o horizonte típico dos contratos de PPP.
Instalar luminárias de espectro azul em larga escala, ignorando as advertências da AMA, da Dark Sky Association e de pesquisadores brasileiros, é um equívoco que poderá ser corrigido apenas a custo elevado, ou que não será corrigido de forma alguma.
A palestra de Silvia Carneiro no dia 15 de agosto, em São Paulo, é gratuita e aberta ao público. Mas a mensagem que ela carrega não deveria ficar confinada a um auditório. Deveria estar sobre a mesa de todo gestor público, fabricante de luminárias e integrador de cidades inteligentes que está tomando decisões sobre iluminação neste exato momento.
A pergunta é simples: Estamos iluminando nossas cidades, ou adoecendo-as?
Participe: Verdes Tons com Silvia Carneiro
A palestra: “A poluição luminosa e seus impactos no ser humano e no Meio Ambiente” acontece no dia 15 de agosto de 2026 (sábado), das 11h às 13h, na UMAPAZ.
Av. Quarto Centenário, 1268, São Paulo/SP.
A atividade é gratuita, faz parte da programação de 51 anos da Escola Municipal de Jardinagem, e tem 40 vagas disponíveis para estudantes, professores, profissionais da área de iluminação, arquitetura, paisagismo e demais interessados no tema.
🔗 Inscreva-se aqui: Formulário de inscrição — Verdes Tons
Dica: Chegue cedo e participe do café de boas-vindas, você pode contribuir com a mesa comunitária trazendo doces, frutas, salgados ou bebidas não alcoólicas. E não se esqueça da sua caneca!
Fontes Consultadas:
Prefeitura de São Paulo — Verdes Tons com Silvia Carneiro
DarkSky International — Contact Your Elected Official to Fight Against Blue-Rich LED Street Lighting
Deutsche Welle — Poluição luminosa crescente impõe riscos a saúde e ambiente
ResearchGate — Poluição Luminosa e Arboviroses (UFC)
ICMBio — Mitigação do impacto da fotopoluição (Apresentação de Silvia Carneiro)
Imagem: Divulgação